NdVO.blog.br

A mais importante tecnologia do século XXI

A humanidade inventou muitas coisas fascinantes. O bitcoin é fascinante não por seus feitos em termos de tecnologia da informação, mas por seus feitos em termos de política. Assim como a Internet e a rede P2P, o Bitcoin altera radicalmente a balança de poder na sociedade. E o faz de propósito, ancorado em uma teoria econômica de senso comum que vem há séculos sendo desrespeitada por autoridades que decidem simplesmente brincar com a moeda.

Altcoins

A "funcionalidade" mais importante do Bitcoin é, a meu ver, as altcoins. Hoje em dia talvez alguém ache isso curioso, mas a questão é que por ser de código aberto e por ter surgido apresentando abertamente o que é, que propósito tem e como é feito, o Bitcoin gerou imediatamente após o seu surgimento um mercado competitivo de moedas. É isto, mais do que qualquer outra coisa, que assegura que as criptomoedas irão evoluir e atender às necessidades dos usuários.

É claro que a maioria, se não todas, as criptomoedas que surgiram após o bitcoin nasceram com o propósito de obter ganhos rápidos e fáceis dando um passo a mais sobre os ombros de um gigante. No fundo, depois de estabelecida uma forma de se criar uma moeda virtual, basta copiar ou mesmo criar uma outra forma, já sabendo que é possível. Isto não quer dizer, no entanto, que todas as demais moedas são ruins ou que são iguais, muito pelo contrário.

Uma impressão preconceituosa das altcoins

Eu demoraria muito para discutir de forma séria aqui algumas das altcoins disponíveis. Existem milhares de altcoins e muitas delas são geniais e outras são simplesmente complexas demais para que eu desse conta de falar sobre elas de forma séria e citando as fontes. Então, para atender a uma necessidade um tanto boba, transcrevo aqui preconceitos que tenho sobre algumas criptomoedas. Lá vai:

Bitcoin - a primeira criptomoeda, ou pelo menos a primeira a funcionar.

Trata-se de um software P2P que mantém um livro-razão público com o registro de todas as transações realizadas. Para escrever transações neste livro razão público o usuário precisa demonstrar que encontrou um hash com dificuldade calculável a partir do conteúdo daquilo que quer registrar. O conteúdo é basicamente todas as transações que foram anunciadas por todos os usuários da rede nos últimos 10 minutos. O conteúdo a ser escrito inclui uma referência ao estado atual do livro-razão. Quem consegue escrever todas estas transações no livro recebe uma recompensa. Dado que é muito difícil fazer isso e a existência da recompensa, todos tentam escrever a próxima página do livro, não reescrever o passado. Este processo, conhecido como Miniração ou proof-of-work garante a integridade do livro-razão (blockchain) e o funcionamento da moeda virtual.

Litecoin - o litecoin usa um algoritmo de criptografia diferente do bitcoin. O litecoin usa o algoritmo scrypt ao passo que o bitcoin usa o SHA256.

O scrypt é um algoritmo de uso intensivo de memória RAM ao passo que o SHA256 usa intensivamente o processador. Por isso é mais fácil criar hardwares específicos para minerar bitcoin, fazendo com que seja mais barato (e menos eficiente) começar a minerar litecoin do que bitcoins. Esta ideia passou a ser copiada nas demais criptomoedas. O Litecoin recentemente passou a ter mais importância como uma espécie de "Área de testes pra valer" do Bitcoin. O bitcoin tem uma rede de testes, mas as moedas lá não tem valor. Ao testar novas funcionalidades no litecoin o teste é mais robusto já que há efetivamente recompensas a serem colhidas por eventuais ataques.

Ether - um computador público P2P.

Enquanto o Bitcoin cria uma escassez virtual e um registro imutável, o Ether busca criar um software "indesligável". A ideia é criar, ao invés de um arquivão P2P gigantesco, um computador P2P gigantesco. Até aí, na verdade, não há novidade já que existem softwares P2P. A diferença principal é que o ethereum é uma plataforma para a criação de softwares P2P que você pode usar sem efetivamente precisar, tecnicamente, estar rodando o software P2P, já que outras pessoas são remuneradas para fazê-lo. Além disso o ethereum também mantém seu próprio livro-razão (como todas as criptomoedas). O termo técnico da moda do ethereum é o smart contract. Trata-se basicamente de um software que não pode ser desligado e, por isso, um "contrato" feito em software neste ambiente será executado da forma como programado, garantindo uma certa segurança às partes.

Dash - um blockchain anônimo

Uma preocupação que surgiu com o Bitcoin foi a privacidade. Dado que se trata de um livro-razão público, em princípio é possível a alguém interessado descobrir quanto dinheiro um usuário da rede tem, quanto gasta por período, para quem paga, etc. Para impedir essa invasão de privacidade o Dash usa uma rede de servidores P2P, conhecidos como master nodes, que junta e embaralha transações. Assim, se você vai pagar 10DSH por uma cadeira, por exemplo, um master node juntaria essa sua transação com outras transações que estejam sendo feitas por outros usuários ao mesmo tempo. É como se você jogasse seus 10 dash num saco e todos os que estão pagando alguém também jogassem, o saco é sacudido e, depois, o saco distribui o dinheiro para quem de direito nas quantidades apropriadas, de modo que não seria possível (possível até seria, mas não seria factível) identificar quem está pagando quem. Além disso o Dash institui um fundo DASH. Quem quiser usar o dinheiro do fundo pode enviar uma proposta para a rede. Os donos de master nodes votam sobre as propostas recebidas e a rede Dash financia a proposta vencedora. O Dash é, no momento, o DAO mais bem sucedido que eu conheço. Não gosto muito da ideia porque basicamente financia alguns com a inflação imposta a todos...

Monero - Um Dash diferente

O Dash teve um início turbulento, com muitas acusações de fraude, dentre outros problemas. O Monero nasceu de forma mais bottom-up. Seu código não é baseado no código do Bitcoin, mas foi desenvolvido do zero. O monero tem uma abordagem diferente para resolver o problema da privacidade. Enquanto as outras criptomoedas tem uma chave pública e uma privada, sendo que a chave pública permite aos demais participantes depositar dinheiro para você e a privada permite a você gastar o seu dinheiro, o Monero usa duas chaves privadas e uma pública (digamos assim). Há uma chave pública para receber o dinheiro e uma chave privada para ver quanto dinheiro há na carteira e outra chave privada para gastar o dinheiro. Desta forma a existência de transações é pública, mas não seu valor. Assim, o Monero tem um livro-razão em que cada entrada dele só é conhecida dos envolvidos, de mais ninguém.

Zcash - Um Dash mais diferente

Não posso dizer que compreendo direito como isso funciona, mas o Zcash usa um algoritmo de criptografia que permite a alguém saber que uma informação está correta sem saber o conteúdo da informação que se sabe correta. Isto é conhecido como Zero Knowledge Proof. Este algoritmo permitiria que a rede mantenha toda informação criptografada e mesmo assim todos os usuários da rede consigam validar se as informações estão corretas ou não. Em princípio, assim me parece, isto tornaria o Zcash a moeda com foco em privacidade mais robusta e promissora.

Ethereum Classic - Um Ether turrão

O caso do The DAO causou uma revolução no mundo do Ethereum e demonstrou na prática que é possível hackear contratos inteligentes e mostrou, pior que isso, que é possível por meio de engenharia social reverter um longo blockchain, o que seria alegadamente impossível no universo das criptomoedas. Após um hacker se aproveitar de falhas em um smart contract na rede ethereum e com isso ganhar milhões de dólares às custas de outros participantes, os criadores do Ether (que também eram os criadores desse smart contract) entraram em contato com todas as exchanges e principais mineradores ether para alterar o código do software P2P e conseguiram em algumas semanas reverter os valores depositados para o hacker, violando a máxima de que "o código é lei" que orientava a comunidade ethereum. Isto levou a um racha na comunidade e os inconformados com essa violação de um princípio para atender a interesses de um caso se separaram da rede ethereum e retomaram o ethereum original. Daí o nome Etherem Classic, por se tratar do Ethereum Original. Não confundam com o "Bitcoin Classic" que é uma proposta para mudar o Bitcoin, não para voltar para o original.

Counterparty - Uma bolsa de valores ao alcance de todos

Você pode emitir ações de você mesmo ou da sua empresa em minutos usando o Counterparty. Não compreendo bem o funcionamento técnico do Counterparty, mas a segurança dele está atrelada à segurança do Bitcoin, o que o torna efetivamente uma SideChain. Uma sidechain é uma espécie de livro-razão associado a um outro livro-razão em função de certos links. Assim, as transações do Counterparty são, eventualmente, consolidadas no Blockchain do Bitcoin. O Counterparty permita que qualquer usuário crie Tokens que podem ser depois distribuídos ou vendidos para outros usuários por Bitcoins ou Counterparty Tokens. Assim, um usuário que tenha uma carteira counterparty pode emitir, digamos, 100.000.000 de NelsonTokens. Daí ele sai vendendo esses tokens dizendo que todo salário que ele ganhar na vida será distribuído aos proprietários desses tokens. Como ele tem 100% no início, tudo o que ele depositar é dele. Se ele vender 10% dos tokens, da próxima vez que a carteira dele receber Bitcoins, 10% estarão disponíveis para os donos desses tokens vendidos. Os tokens podem ser revendidos livremente e o CounterParty resolve a distribuição. Muitas (muitas mesmo) criptomoedas que circulam por aí são na verdade CounterParty tokens criados assim. Também existem coisas idênticas ao counterparty criadas no Ethereum, de modo que muitas outras moedas são, na verdade, imitações de counterparty rodando na rede ethereum.

Dogecoin - uma avacalhação

O Dogecoin começou como uma brincadeira. Alguém viu que era possível criar moedas virtuais facilmente então decidiu criar uma moeda baseada em um meme que circulava na internet na época. Um meme de um cachorrinho, o Doge. Por isso Dogecoin. O Dogecoin é emitido em larga escala, mas em um valor fixo. Isto faz com que existam muitos doges, muitos mesmo. A taxa de transação do doge é 1 doge, muito barata. Muito, muito, muito menos do que um centavo. Isto faz com que seja uma ótima moeda para você pagar quantias muito baixas, como apostar vinte centavos em um jogo de futebol, pagar cinquenta centavos para alguém te lembrar o nome de alguma coisa que você esqueceu ou pagar 5 reais para alguém revisar o texto de um email que você pretende enviar. O Dogecoin é importante porque ao redor dele se formou uma comunidade muito ativa de usuários. Eles são muito inclinados a doações. Doges são usados para financiar inúmeros projetos de caridade (ou simplesmente malucos) e para dar esmolas pela internet. A comunidade Dogecoin chegou a patrocinar um carro de corrida na Nascar (é sério!).

Steem - (mais) uma rede social baseada em criptomoedas

O Steem é uma moeda usada para pagar para pessoas que postam coisas em redes sociais (na rede steemit), que curtem coisas, que são curtidas ou que reencaminham coisas que outras pessoas curtem, são curtidas e reencaminham. Enfim, o steem é usado para criar uma rede social em que os participantes são remunerados. Já existiu uma dessa que funcionava com bitcoins, mas ela fechou (até onde eu saiba) depois do sucesso do Steem. Eu desconfio muito do steem. Para mim ele é um esquema de pirâmide cheio de estacas de madeira que tentam deixá-lo de pé... Parecido com as moedas nacionais neste aspecto. A questão é que quando alguém ganha Steems por postar em redes sociais ele não pode sacar imediatamente, deve esperar determinado número de dias ou determinado montante ser alcançado. Além disso as pessoas podem trocar por SteemPower que faz com que suas postagens e curtidas remunerem mais as pessoas, mas também rende juros em steems. Tem ainda o steem dolar, que é um steem que mantém paridade com o dólar. Isto é obtido pela impressão de mais steems para os donos de steem-dólar caso o steem caia, e destruição caso o steem suba. Assim, se alguém tem 10 steem dolars e o steem cai para 1 dolar, quando ele sacar, sacará 10 steems, gerando mais inflação na rede steem. Só que essa inflação ficará contida por um tempo até que ele possa gastar seus steems. Bem, pensando bem, o steem se parece bastante com a moeda estatal. Quando você trabalha em reais, recebe um tanto para gastar na hora, outro tanto fica preso até dezembro, outro tanto fica preso até as férias, outro tanto fica preso até a aposentadoria e outro tanto fica preso para o caso de você ser demitido, e outro tanto é retirado pelo governo para lhe dar algumas coisas que você não quer, mas parte desse tanto pode ser recuperado se você gastar parte do tanto livre com coisas que o governo diz que é pra você gastar... Enfim. O resumo é: não invista em steems, nem reais. Agora, se você quiser postar numa rede social, pode ser melhor postar numa que te paga numa moeda esquisita à beça do que numa que não te paga coisa nenhuma.

Voxel - Uma espécie de coisa nenhuma

Alguém pensou em criar uma moeda virtual para ser usada para comprar coisas virtuais. Então ele montou uma empresa e fez parcerias com outras empresa, montou um site e sai vendendo essa moeda virtual. Ela perdeu 99,9999999999% do valor e agora é transacionada por mais ou menos nada... Este cenário deve ter se repetido milhares de vezes no mundo das criptomoedas, mas esta é a única moeda zumbi que eu acompanhei a trajetória. Por algum motivo desconhecido ela ainda aparece (mas não pode ser transacionada) no site do Uphold, que é uma empresa muito interessante para se guardar dinheiro. Por isso, se você por acaso tem R$0,10 ou menos para investir, pode ser uma boa ideia comprar uns 500 voxels e torcer para que tudo não tenha passado de um gigantesco mal entendido e os Voxels subirem de novo.

Namecoin - um dns P2P

O DNS é o registro dos nomes de domínio. É basicamente um cartório que cuida dos endereços da internet. O Namecoin se propõe a substituir esses cartórios (atualmente centralizados e controlados por estados) por algo descentralizado. Não sei por que eles fizeram uma nova moeda para isso, ao invés de usar o Bitcoin, mas o fato é que o namecoin é uma das mais moedas mais antigas e em funcionamento. A mineração do namecoin ocorre com a própria mineração do Bitcoin, de modo que todo mundo que minera bitcoin pode ganhar namecoins de graça, bastando escrever também os blocos do namecoin. Pode ser que um dia o namecoin alcance seu objetivo. Não acho que seja improvável. Bastaria que os navegadores (ou melhor, sistemas operacionais) viessem de fábrica com o namecoin instalado. A partir daí seria possível uma internet com domínios completamente fora do controle dos governos.

Ripple - uma (pseudo)criptomoeda não P2P, não descentralizada, não independente de bancos e governos

O ripple antecede o bitcoin, não é uma criptomoeda e nem sei por que raios as pessoas o colocam no mesmo bote das criptomoedas. É, no entanto, provavelmente um potencial vencedor. A questão é que o swift, sistema que os bancos atualmente utilizam para fazer as compensações bancárias internacionais, é ridiculamente frágil e tem sido alvo de ataques hackers que desviam quantidades consideráveis ou derrubam o sistema. Dado que o sistema atual está simplesmente falido, uma empresa vinha tentando emplacar um sistema melhor, baseado em tokens próprios, para fazer a compensação. O surgimento do blockchain serviu de grande impulso para o desenvolvimento do Ripple e para sua propaganda, já que os bancos e governos tem muito a perder com as blockchains open source e poderiam tentar conter seu avanço usando um serviço inspirado nelas que aumente a qualidade e eficiência dos sistemas centralizados. Eis o Ripple. Ele pode fazer para os blockchains o mesmo que o Netflix fez com o compartilhamento de filmes P2P: atrasar sua difusão ao abaixar os custos do sistema tradicional.

LTBCoin - Um token para anúncios em um podcast

O LTBCoin é um exemplo do que é possível fazer com o Counterparty. Uma rede de podcasts sobre Bitcoin decidiu se financiar emitindo tokens na rede Counterparty e criou a LTBCoin. Os anúncios na rede só podem ser comprados usando LTBCoins, que foram emitidos pela rede de podcasts. A partir daí os tokens LTBCoins podem ser trocados pelos usuários. Para estimular o crescimento da rede, foram (ou ainda são) distribuídos estes tokens para os ouvintes e locutores do podcast. Caso você queira ganhar LTBCoins para ouvir podcasts, acesse letstalkbitcoin.